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  Eu já nem acho meus papéis. Eles devem estar engolidos em algum lugar. Assim como eu fui engolida por tudo. Meus braços e pernas ainda se debatem, mas minha cabeça já quase não encontra ar. E a culpa se instala só de começar a escrever isso. Difícil de crer ou de aceitar, mas, mesmo amando, a gente se perde. Ainda mais quando não encontra mais nada de si. Não encontra seu corpo, suas noites, seus cabelos, seu raciocínio, seus projetos, seus gostos, seus amigos. Seu sono se transforma em cochilos. Sua comida em restos.  Há tanto e, ao mesmo tempo, não há mais nada. A cabeça tenta derramar alguma lágrima e os olhos não deixam por falta de energia, falta de água, falta de si. Eu me perdi, assim como os meus papéis estão perdidos por aí. E entendo se você não amar mais o que restou, porque sei que restou muito pouco.  Uma lágrima caiu.  Talvez ainda exista alguma alma. 
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 Nascer e reviver  Certo dia, suas células começaram a se multiplicar dentro de mim. Aos poucos, você foi crescendo e se formando. Você ainda estava aqui dentro quando suas mãos tomaram forma e, com elas, você passou a encostar nas paredes do meu útero e a se esticar. Ali você já ia marcando seus dedos com suas primeiras experiências. E a sua busca por espaço me libertava. Abria compartimentos dentro de mim que eu nem sabia que existiam. A cada chute em minha barriga uma corrente ao meu redor arrebentava. Você nasceu e eu pude finalmente respirar profunda e suavemente.  Ainda estou aprendendo a viver assim livre. Sigo curando algumas feridas deixadas na pele pelo longo tempo de apresamento, mas já é tão alegre correr livre em sua companhia.  25.02.2023: você nasceu e eu revivi.
Vó   Uma mesa. Uma toalha. Uma cadeira de madeira. Os azulejos ocupam até a metade da parede. A xícara tem um dourado pela borda e flores pintadas à mão. A cidreira foi colhida no jardim. Só ela tem aquela xícara, só ela tem aquele chá, porque só ela tem aquele amor. Ninguém consegue colocar tanto amor ao seu redor, em absolutamente todas as coisas, a todo tempo. Ninguém consegue fazer com que seu amor seja sentido em todos os segundos como ela. Ela amava enquanto te olhava, abraçava ou simplesmente pensava. Amava até mesmo na dor, no desespero, na despedida. Amor, amar, é tudo o que a Senhora sempre representará. Que os céus agora possam desfrutar da volta de alguém que foi um presente. Alguém que só poderia mesmo ter virado um arco-íris, porque refletia todas as cores. Obrigada pela vida, vovó.  09 de fevereiro de 2017
  Depois de acreditar que tudo não passava de algo que já havíamos vivido, entrei naquele leito. Olhei para você. Seus cabelos longos, grisalhos - e ainda brilhantes - soltos como era raro vermos. Um olhar doce, mas preocupado, com esperança, com uma fé que brilhava naquele mundo que você guardava em seus olhos. Era difícil, né, vó? Era difícil comer uma simples colher de purê. Mas você tentava incansavelmente, pedia que a abanasse.  Parava olhando distante para a parede e eu lhe mandava um discreto beijo, sempre retribuído e seguido de um sorriso sincero, que não perdia sua alegria na escuridão. E assim seguimos naquele início de noite. Você mais um dia lutou. Colocaram em seu rosto um objeto. Ele trazia ar. Um ar que já estava difícil de respirar. Um alívio tomou conta de seu corpo e você, como sempre, agradecia incessantemente por mais aquele respiro.  A noite adentrou. Segui somatizando em cada célula minha tudo aquilo que estava acontecendo. Ainda com fé. E então, na...
                                                                                                 A Cura As nuvens passavam tão rápido. As estrelas corriam no céu. O dia raiava e se despedia com uma velocidade que não correspondia ao tempo ou à sensação do que chamamos de horas. E é nessa sucessão de cenas aceleradas que nos deparávamos um com o outro. Vivíamos em um círculo. Tropeçávamos um no outro. Corríamos para todos os lados. Queríamos sair dali. Nada daquilo fazia sentido. Nem pra mim. Nem para você. O desespero se instalava. Eu chorava, você esbravejava. Às vezes eu me aproximava, mas com um rápido reflexo inconsciente você me afastava em um só solavanco. Nossas mãos se espalmavam no vazio das p...
 A dor Era só uma criança. Braços esguios cobertos por uma pele fina, sensível, suscetível a tudo que lhe tocava. Longos cabelos loiros caíam sobre os seus ombros e iluminavam a paisagem cinza e fria onde ela se encontrava. Grandes olhos azuis pareciam existir para lhe recordar que o futuro poderia ser cristalino. O tempo foi passando e o corpo dela foi tomando forma. Enquanto isso, abria-se um espaço em seu interior. Ela foi criando um compartimento dentro de si. Foi espremendo seus órgãos para que em um determinado local fosse possível armazenar toda a frustração, a repreensão e a agressividade que eram derramadas, despejadas e arremessadas sobre si. Tudo aquilo foi sendo acumulado. No mesmo lugar ia se concentrando o medo, o desespero e a angústia que aquele derramamento lhe causava. Esse foi o mecanismo para sobreviver. Esse foi o modo encontrado para não refletir simplesmente o que lhe era projetado, impedindo, assim, que o seu eu se tornasse mais um como aquele. Funcionou. Ma...
  Eu queria descobrir quando. Qual foi o dia que eu deixei de me enxergar. Na ânsia de ter minha existência notada eu esqueci dela própria. A ideia, ainda que inconsciente, era bastante lógica: auxiliar o outro faria com que eu existisse para ele e, ao mesmo tempo, tornaria a vida de alguém melhor. Nada poderia ser mais adequado às minhas aspirações. Mas nesse caminho eu me perdi. Não a minha orientação. A minha própria constituição. Perdi-me, porquanto, nesse trajeto, cujo objetivo era a minha existência, as pessoas que usufruíram do meu ímpeto foram aos poucos me consumindo.  É como se eu tivesse ingressado em uma vila, até então desconhecida, aparentemente tão cheia de vida, com seus jardins que sossegam a alma e suas flores que cultivam a esperança. Cheguei com meus cabelos soltos e reluzentes, minha roupa leve e uma grande cesta cheia de frutas para oferecer aos meus contemporâneos, até que, certo dia - aquele que eu queria descobrir qual - os pomos se findaram e eu passe...
  Era um dia de outono. O frio não nos assustava e o sol esquentava o topo de nossas cabeças enquanto andávamos na rua. Eu estava caminhando, era uma rua arborizada, tranquila, cheia de vida. Eis que eu te vi. Você era um menino esguio, moreno. Seu cabelo cortado bem rente à cabeça era sua forma de representar a sua crença na ordem. Você usava um uniforme escolar simples, antigo, mas bem lavado e quase duro de tanto que suas fibras já resistiram ao tempo. Aquilo tudo era a sua resistência. Cada passo seu, todos os dias por aquelas ruas tranquilas enquanto sua vivência era uma guerra, apontavam sua coragem.  Você, menino, olhou para mim. E eu te vi. Eu enxerguei seus olhos que, ainda criança, já não tinham luz. Eu vi seu abandono. Eu sei, você não quer nada falar. Parece que não há nada a dizer. Afinal, o que falar da atrocidade humana? O que dizer quando a luta é conseguir manter um uniforme minimamente inteiro para que ninguém veja a sua verdadeira batalha? É difícil existir ...