Eu já nem acho meus papéis. Eles devem estar engolidos em algum lugar. Assim como eu fui engolida por tudo. Meus braços e pernas ainda se debatem, mas minha cabeça já quase não encontra ar. E a culpa se instala só de começar a escrever isso. Difícil de crer ou de aceitar, mas, mesmo amando, a gente se perde. Ainda mais quando não encontra mais nada de si. Não encontra seu corpo, suas noites, seus cabelos, seu raciocínio, seus projetos, seus gostos, seus amigos. Seu sono se transforma em cochilos. Sua comida em restos. Há tanto e, ao mesmo tempo, não há mais nada. A cabeça tenta derramar alguma lágrima e os olhos não deixam por falta de energia, falta de água, falta de si. Eu me perdi, assim como os meus papéis estão perdidos por aí. E entendo se você não amar mais o que restou, porque sei que restou muito pouco. Uma lágrima caiu. Talvez ainda exista alguma alma.
Nascer e reviver Certo dia, suas células começaram a se multiplicar dentro de mim. Aos poucos, você foi crescendo e se formando. Você ainda estava aqui dentro quando suas mãos tomaram forma e, com elas, você passou a encostar nas paredes do meu útero e a se esticar. Ali você já ia marcando seus dedos com suas primeiras experiências. E a sua busca por espaço me libertava. Abria compartimentos dentro de mim que eu nem sabia que existiam. A cada chute em minha barriga uma corrente ao meu redor arrebentava. Você nasceu e eu pude finalmente respirar profunda e suavemente. Ainda estou aprendendo a viver assim livre. Sigo curando algumas feridas deixadas na pele pelo longo tempo de apresamento, mas já é tão alegre correr livre em sua companhia. 25.02.2023: você nasceu e eu revivi.