A dor
Era só uma criança. Braços esguios cobertos por uma pele fina, sensível, suscetível a tudo que lhe tocava. Longos cabelos loiros caíam sobre os seus ombros e iluminavam a paisagem cinza e fria onde ela se encontrava. Grandes olhos azuis pareciam existir para lhe recordar que o futuro poderia ser cristalino. O tempo foi passando e o corpo dela foi tomando forma. Enquanto isso, abria-se um espaço em seu interior. Ela foi criando um compartimento dentro de si. Foi espremendo seus órgãos para que em um determinado local fosse possível armazenar toda a frustração, a repreensão e a agressividade que eram derramadas, despejadas e arremessadas sobre si. Tudo aquilo foi sendo acumulado. No mesmo lugar ia se concentrando o medo, o desespero e a angústia que aquele derramamento lhe causava. Esse foi o mecanismo para sobreviver. Esse foi o modo encontrado para não refletir simplesmente o que lhe era projetado, impedindo, assim, que o seu eu se tornasse mais um como aquele. Funcionou. Mas esse espaço criado ainda é ocupado por tudo isso. O outro foi se afastando, tornando-se mais fraco frente à infância que não mais subsiste. Parece que as situações concretas de temor, desprezo e aflição foram se eterizando. Não obstante, esse vapor criado ainda existe e integra aquele compartimento interno. Como todo vapor, às vezes ele é agitado por forças externas e aparenta que vai explodir. É difícil conviver com ele. Ora ele te pulsa, ora ele te cala.
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