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Showing posts from August, 2024
 Há tanto no meu colo.  As compras, as roupas, os brinquedos, as sacolas, os compromissos que esqueci de agendar. E no meio disso tudo o mais importante: você. O pequeno bebê que, um dia, sem nem estar aqui, disse em meu ouvido que tudo iria ficar bem.  No meio de tantas tralhas amontoadas sobre mim, é você quem importa. É você quem precisa de espaço no meu colo. Precisa de uma respiração calma para aquietar seus medos. De um abraço apertado para sentir pertencimento.  Não há mais como carregar tanta quinquilharia.  Muito precisa ir embora.  É hora de deixar cair... Deixar desprender o inútil, o prescindível, o desamor, a incompreensão. Deixar as pessoas apegadas ao infecundo partirem. Não há mais espaço e nem colo para elas.  O desejo, em paz, é que elas aprendam um dia a se nutrir. 
  Eu já nem acho meus papéis. Eles devem estar engolidos em algum lugar. Assim como eu fui engolida por tudo. Meus braços e pernas ainda se debatem, mas minha cabeça já quase não encontra ar. E a culpa se instala só de começar a escrever isso. Difícil de crer ou de aceitar, mas, mesmo amando, a gente se perde. Ainda mais quando não encontra mais nada de si. Não encontra seu corpo, suas noites, seus cabelos, seu raciocínio, seus projetos, seus gostos, seus amigos. Seu sono se transforma em cochilos. Sua comida em restos.  Há tanto e, ao mesmo tempo, não há mais nada. A cabeça tenta derramar alguma lágrima e os olhos não deixam por falta de energia, falta de água, falta de si. Eu me perdi, assim como os meus papéis estão perdidos por aí. E entendo se você não amar mais o que restou, porque sei que restou muito pouco.  Uma lágrima caiu.  Talvez ainda exista alguma alma.