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                                                                             A Cura


As nuvens passavam tão rápido. As estrelas corriam no céu. O dia raiava e se despedia com uma velocidade que não correspondia ao tempo ou à sensação do que chamamos de horas. E é nessa sucessão de cenas aceleradas que nos deparávamos um com o outro. Vivíamos em um círculo. Tropeçávamos um no outro. Corríamos para todos os lados. Queríamos sair dali. Nada daquilo fazia sentido. Nem pra mim. Nem para você. O desespero se instalava. Eu chorava, você esbravejava. Às vezes eu me aproximava, mas com um rápido reflexo inconsciente você me afastava em um só solavanco. Nossas mãos se espalmavam no vazio das paredes invisíveis desse círculo. Tentávamos sair, mas não conseguíamos. Tentávamos nos olhar, mas jamais parávamos frente a frente. Corremos, caímos, machucamos e, por algum motivo que jamais entenderemos, permanecemos ali. Sua fúria era da vida. De cada possibilidade de carinho que ela lhe extirpou. De cada afeto que ela lhe privou. Do aconchego que ela o impediu de ter. Do amor que ela nunca lhe mostrou. O meu desespero era de sentir na minha pele os respingos da sua dor. Era de desconhecer de onde e o porquê. 

Hoje estamos cansados. Hoje o tempo parece correr mais na sua marcha natural. Paramos de correr dentro do círculo. Meu rosto se levanta e encontra do outro lado deste raio o seu que, com suas pálpebras caídas, alinha-se ao meu. Por um certo tempo ficamos ali parados, sem se mexer. Você pedindo silenciosamente por mais uma chance. Meus olhos ainda marejados. Por quanto tempo eu senti raiva por achar que aquilo que caía em mim era culpa minha? Por pensar que seu desamor era pela minha mera existência? Eu tive medo. Eu senti o seu desprezo. Mas hoje eu vejo que o que eu jamais entenderei mesmo foi o que a vida fez com você. Afinal, foi ela, não é mesmo? Foi ela que o arremessou na rua. Foi ela que o deixou no chão frio. Foi ela que só lhe deu um papelão para dormir. Foi ela que deixava as baratas subirem no resto de comida que ainda havia. Você sentia a dor que vinha da vida e eu sentia a dor que vinha de você. Hoje eu estendo as minhas mãos. Hoje eu espero que você se aproxime. Que eu veja nas suas pálpebras caídas a sua resistência ao mundo. Nos seus cabelos brancos a sua força para deixar as cores para trás sem perder a vida. E que você veja na minha juventude a esperança da mudança. Nos meus cabelos trançados a voracidade do enfrentamento que só você poderia ensinar. Que consigamos sair desse círculo, cada um para a sua trilha. Em paz e em comunhão. 

21 de setembro de 2017

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