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 Depois de acreditar que tudo não passava de algo que já havíamos vivido, entrei naquele leito. Olhei para você. Seus cabelos longos, grisalhos - e ainda brilhantes - soltos como era raro vermos. Um olhar doce, mas preocupado, com esperança, com uma fé que brilhava naquele mundo que você guardava em seus olhos. Era difícil, né, vó? Era difícil comer uma simples colher de purê. Mas você tentava incansavelmente, pedia que a abanasse. Parava olhando distante para a parede e eu lhe mandava um discreto beijo, sempre retribuído e seguido de um sorriso sincero, que não perdia sua alegria na escuridão. E assim seguimos naquele início de noite. Você mais um dia lutou. Colocaram em seu rosto um objeto. Ele trazia ar. Um ar que já estava difícil de respirar. Um alívio tomou conta de seu corpo e você, como sempre, agradecia incessantemente por mais aquele respiro. 

A noite adentrou. Segui somatizando em cada célula minha tudo aquilo que estava acontecendo. Ainda com fé. E então, na madrugada, você acordou. Era uma agonia infinita. Não obstante, calmamente, sem alterar seu tom de voz ou sua eterna veludez, você me dizia que a morte havia chegado, questionava-me o que havia feito para sofrer tanto. Meu chão caía. Minhas pernas tremiam. Eu não precisava mais de diagnósticos, de  aparelhos, de dados. A ciência é nada perto da sua verdade. Ali nos despedimos, vovó. Despedimo-nos de uma vida. Eu não pude mover as montanhas. Eu não consegui fazê-la se reerguer como o dia. Mas espero que minha alma escale tão alto quanto necessário para lhe alcançar e, mais uma vez, dizer que te amo e que tudo que carrego é saudade. A fé? Sua grande lição. Guardo-a aqui na minha caixinha. 

04 de março de 2017

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  Eu já nem acho meus papéis. Eles devem estar engolidos em algum lugar. Assim como eu fui engolida por tudo. Meus braços e pernas ainda se debatem, mas minha cabeça já quase não encontra ar. E a culpa se instala só de começar a escrever isso. Difícil de crer ou de aceitar, mas, mesmo amando, a gente se perde. Ainda mais quando não encontra mais nada de si. Não encontra seu corpo, suas noites, seus cabelos, seu raciocínio, seus projetos, seus gostos, seus amigos. Seu sono se transforma em cochilos. Sua comida em restos.  Há tanto e, ao mesmo tempo, não há mais nada. A cabeça tenta derramar alguma lágrima e os olhos não deixam por falta de energia, falta de água, falta de si. Eu me perdi, assim como os meus papéis estão perdidos por aí. E entendo se você não amar mais o que restou, porque sei que restou muito pouco.  Uma lágrima caiu.  Talvez ainda exista alguma alma. 
 Nascer e reviver  Certo dia, suas células começaram a se multiplicar dentro de mim. Aos poucos, você foi crescendo e se formando. Você ainda estava aqui dentro quando suas mãos tomaram forma e, com elas, você passou a encostar nas paredes do meu útero e a se esticar. Ali você já ia marcando seus dedos com suas primeiras experiências. E a sua busca por espaço me libertava. Abria compartimentos dentro de mim que eu nem sabia que existiam. A cada chute em minha barriga uma corrente ao meu redor arrebentava. Você nasceu e eu pude finalmente respirar profunda e suavemente.  Ainda estou aprendendo a viver assim livre. Sigo curando algumas feridas deixadas na pele pelo longo tempo de apresamento, mas já é tão alegre correr livre em sua companhia.  25.02.2023: você nasceu e eu revivi.
Carta à minha filha   Merkaba em hebraico significa "carruagem" e, em uma tradução egípcia antiga, "luz, corpo, espírito". Assim, diz respeito a um instrumento que viabiliza conexão entre esses elementos (a luz, o corpo e o espírito). É um símbolo tridimensional formado por duas pirâmides voltadas para direções opostas, podendo simbolizar a combinação da terra e do cosmo ou da energia feminina e da masculina em um equilíbrio perfeito, de modo que as pirâmides se conectam ou se sobrepõem no centro.  Você é uma linda merkaba de cristal, minha filha. Nossas energias se uniram para te formar e você nos fez conhecer o amor mais puro, mais cristalino, levando-nos em sua carruagem para uma dimensão que, embora nela já acreditássemos, jamais havíamos a sentido.  Conheci as mais excruciantes dores no meu corpo e na minha alma ao te ver partir. Mas nada disso importa quando penso que elas foram necessárias para que você seguisse no seu caminho de luz. Nada disso importa porqu...