Depois de acreditar que tudo não passava de algo que já havíamos vivido, entrei naquele leito. Olhei para você. Seus cabelos longos, grisalhos - e ainda brilhantes - soltos como era raro vermos. Um olhar doce, mas preocupado, com esperança, com uma fé que brilhava naquele mundo que você guardava em seus olhos. Era difícil, né, vó? Era difícil comer uma simples colher de purê. Mas você tentava incansavelmente, pedia que a abanasse. Parava olhando distante para a parede e eu lhe mandava um discreto beijo, sempre retribuído e seguido de um sorriso sincero, que não perdia sua alegria na escuridão. E assim seguimos naquele início de noite. Você mais um dia lutou. Colocaram em seu rosto um objeto. Ele trazia ar. Um ar que já estava difícil de respirar. Um alívio tomou conta de seu corpo e você, como sempre, agradecia incessantemente por mais aquele respiro.
A noite adentrou. Segui somatizando em cada célula minha tudo aquilo que estava acontecendo. Ainda com fé. E então, na madrugada, você acordou. Era uma agonia infinita. Não obstante, calmamente, sem alterar seu tom de voz ou sua eterna veludez, você me dizia que a morte havia chegado, questionava-me o que havia feito para sofrer tanto. Meu chão caía. Minhas pernas tremiam. Eu não precisava mais de diagnósticos, de aparelhos, de dados. A ciência é nada perto da sua verdade. Ali nos despedimos, vovó. Despedimo-nos de uma vida. Eu não pude mover as montanhas. Eu não consegui fazê-la se reerguer como o dia. Mas espero que minha alma escale tão alto quanto necessário para lhe alcançar e, mais uma vez, dizer que te amo e que tudo que carrego é saudade. A fé? Sua grande lição. Guardo-a aqui na minha caixinha.
04 de março de 2017
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