Era um dia de outono. O frio não nos assustava e o sol esquentava o topo de nossas cabeças enquanto andávamos na rua. Eu estava caminhando, era uma rua arborizada, tranquila, cheia de vida. Eis que eu te vi. Você era um menino esguio, moreno. Seu cabelo cortado bem rente à cabeça era sua forma de representar a sua crença na ordem. Você usava um uniforme escolar simples, antigo, mas bem lavado e quase duro de tanto que suas fibras já resistiram ao tempo. Aquilo tudo era a sua resistência. Cada passo seu, todos os dias por aquelas ruas tranquilas enquanto sua vivência era uma guerra, apontavam sua coragem.
Você, menino, olhou para mim. E eu te vi. Eu enxerguei seus olhos que, ainda criança, já não tinham luz. Eu vi seu abandono. Eu sei, você não quer nada falar. Parece que não há nada a dizer. Afinal, o que falar da atrocidade humana? O que dizer quando a luta é conseguir manter um uniforme minimamente inteiro para que ninguém veja a sua verdadeira batalha? É difícil existir quando ninguém te vê. Mas eu te vejo e, respeitosamente, curvo-me à sua retinência.
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