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 Era um dia de outono. O frio não nos assustava e o sol esquentava o topo de nossas cabeças enquanto andávamos na rua. Eu estava caminhando, era uma rua arborizada, tranquila, cheia de vida. Eis que eu te vi. Você era um menino esguio, moreno. Seu cabelo cortado bem rente à cabeça era sua forma de representar a sua crença na ordem. Você usava um uniforme escolar simples, antigo, mas bem lavado e quase duro de tanto que suas fibras já resistiram ao tempo. Aquilo tudo era a sua resistência. Cada passo seu, todos os dias por aquelas ruas tranquilas enquanto sua vivência era uma guerra, apontavam sua coragem. 

Você, menino, olhou para mim. E eu te vi. Eu enxerguei seus olhos que, ainda criança, já não tinham luz. Eu vi seu abandono. Eu sei, você não quer nada falar. Parece que não há nada a dizer. Afinal, o que falar da atrocidade humana? O que dizer quando a luta é conseguir manter um uniforme minimamente inteiro para que ninguém veja a sua verdadeira batalha? É difícil existir quando ninguém te vê. Mas eu te vejo e, respeitosamente, curvo-me à sua retinência. 

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  Eu já nem acho meus papéis. Eles devem estar engolidos em algum lugar. Assim como eu fui engolida por tudo. Meus braços e pernas ainda se debatem, mas minha cabeça já quase não encontra ar. E a culpa se instala só de começar a escrever isso. Difícil de crer ou de aceitar, mas, mesmo amando, a gente se perde. Ainda mais quando não encontra mais nada de si. Não encontra seu corpo, suas noites, seus cabelos, seu raciocínio, seus projetos, seus gostos, seus amigos. Seu sono se transforma em cochilos. Sua comida em restos.  Há tanto e, ao mesmo tempo, não há mais nada. A cabeça tenta derramar alguma lágrima e os olhos não deixam por falta de energia, falta de água, falta de si. Eu me perdi, assim como os meus papéis estão perdidos por aí. E entendo se você não amar mais o que restou, porque sei que restou muito pouco.  Uma lágrima caiu.  Talvez ainda exista alguma alma. 
 Nascer e reviver  Certo dia, suas células começaram a se multiplicar dentro de mim. Aos poucos, você foi crescendo e se formando. Você ainda estava aqui dentro quando suas mãos tomaram forma e, com elas, você passou a encostar nas paredes do meu útero e a se esticar. Ali você já ia marcando seus dedos com suas primeiras experiências. E a sua busca por espaço me libertava. Abria compartimentos dentro de mim que eu nem sabia que existiam. A cada chute em minha barriga uma corrente ao meu redor arrebentava. Você nasceu e eu pude finalmente respirar profunda e suavemente.  Ainda estou aprendendo a viver assim livre. Sigo curando algumas feridas deixadas na pele pelo longo tempo de apresamento, mas já é tão alegre correr livre em sua companhia.  25.02.2023: você nasceu e eu revivi.
Carta à minha filha   Merkaba em hebraico significa "carruagem" e, em uma tradução egípcia antiga, "luz, corpo, espírito". Assim, diz respeito a um instrumento que viabiliza conexão entre esses elementos (a luz, o corpo e o espírito). É um símbolo tridimensional formado por duas pirâmides voltadas para direções opostas, podendo simbolizar a combinação da terra e do cosmo ou da energia feminina e da masculina em um equilíbrio perfeito, de modo que as pirâmides se conectam ou se sobrepõem no centro.  Você é uma linda merkaba de cristal, minha filha. Nossas energias se uniram para te formar e você nos fez conhecer o amor mais puro, mais cristalino, levando-nos em sua carruagem para uma dimensão que, embora nela já acreditássemos, jamais havíamos a sentido.  Conheci as mais excruciantes dores no meu corpo e na minha alma ao te ver partir. Mas nada disso importa quando penso que elas foram necessárias para que você seguisse no seu caminho de luz. Nada disso importa porqu...