Eu queria descobrir quando. Qual foi o dia que eu deixei de me enxergar. Na ânsia de ter minha existência notada eu esqueci dela própria. A ideia, ainda que inconsciente, era bastante lógica: auxiliar o outro faria com que eu existisse para ele e, ao mesmo tempo, tornaria a vida de alguém melhor. Nada poderia ser mais adequado às minhas aspirações. Mas nesse caminho eu me perdi. Não a minha orientação. A minha própria constituição. Perdi-me, porquanto, nesse trajeto, cujo objetivo era a minha existência, as pessoas que usufruíram do meu ímpeto foram aos poucos me consumindo.
É como se eu tivesse ingressado em uma vila, até então desconhecida, aparentemente tão cheia de vida, com seus jardins que sossegam a alma e suas flores que cultivam a esperança. Cheguei com meus cabelos soltos e reluzentes, minha roupa leve e uma grande cesta cheia de frutas para oferecer aos meus contemporâneos, até que, certo dia - aquele que eu queria descobrir qual - os pomos se findaram e eu passei a ser consumida. Sai dali quase sem pele, com meus cabelos ralos, minhas roupas esgarçadas. Minhas rubras bochechas quase sem cor. Consegui fugir, mas cheguei em um lago que me refletia e vi essa imagem. É difícil se reconstruir dai. Árduo ter alguma percepção de quem sou. A minha mão que se estendeu tantas vezes entregando aquelas frutas era um ofertar de coexistência e, no fim, somente o outro sobreviveu. Agora, eu tento, aos poucos, ir recuperando alguma luz no meu olhar, alguma calidez nas minhas têmporas, alguma força para prosseguir sem o pesar da dor. E o mais incompreensível disso tudo é que ainda deixo os que retiraram toda a minha vivacidade se aproximar, porque, no fim, o que eles ainda consomem de mim me lembra que me resta alguma substância.
1º de novembro de 2018
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