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Carta a um pai 

Sempre te vi forte. A todo momento você carregou a força do maior dos guerreiros. Afinal, você foi um. Lutou desde que seus pés foram colocados ao solo. Pés descalços, mãos atadas, um sol extenuante e uma terra roxa que abafava seu ar. Ainda assim você respirava. Sozinho e vencendo todas as batalhas, uma a uma, colocou sapatos em seus pés, desamarrou suas mãos e construiu seu próprio abrigo do sol. 

Poderia ter ficado ali admirando tudo o que fez. Mas, não. Isso não era suficiente. Era preciso ensinar, dar armas aos outros que teriam que passar pelos mesmos campos. E assim você o fez para todos os que cruzaram seu caminho e para as filhas que trouxe ao mundo. 

Você nos deu todas as armas. Não há luta que não consigamos vencer. Disciplina, dedicação, esforço, perseverança, honestidade e ética. Os mais elevados atributos você nos ensinou com um raro nível de excelência e o mais impressionante é que você os construiu sozinho dentro de si. 

Hoje você continua forte, mas olho para você e não o enxergo armado. Vejo seu sorriso leve mesmo depois de tantas lutas. Sua capacidade de admirar a beleza do mundo mesmo depois de tudo que seus olhos já enfrentaram: essa é sua maior força. A mais bela e iluminada de todas.

Que o mundo enxergue nas suas pálpebras caídas a sua capacidade de resistência. Nos seus cabelos brancos a sua força de deixar as cores para trás sem perder a vida. E que a luz que com tanta potência você emana guie sempre a todos nós. 

18 de julho de 2020

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